Expedição Aves de Corumbá 2026
Relato de viagem
Em janeiro de 2026, soubemos da existência de um ninho de harpia na região de Corumbá, Mato Grosso do Sul. Entramos em contato com os biólogos que haviam descoberto e vinham monitorando o ninho e decidimos montar dois pequenos grupos, de apenas três participantes cada, para tentar fotografar uma das maiores joias da fauna sul-americana e brasileira: a harpia, ou gavião-real.
A harpia é a maior águia das Américas e uma das mais poderosas aves de rapina do planeta. Pode chegar a mais de dois metros de envergadura, e suas garras, que chegam a cerca de 10 centímetros, são capazes de capturar animais como macacos, preguiças, quatis, tatus e até tamanduás-mirim.
Encontrar um ninho ativo de harpia — e, mais raro ainda, um ninho que pudesse ser visitado — é uma oportunidade excepcional. A reprodução da espécie é extremamente lenta: a fêmea normalmente põe dois ovos, mas apenas um filhote costuma sobreviver. O casal reutiliza e reforma o ninho a cada dois ou três anos, e o jovem permanece dependente dos pais por um longo período, podendo levar até dois anos ou mais para alcançar sua independência.
Por isso, nossa empolgação em organizar rapidamente uma expedição para acompanhar aquele ninho.
A expedição foi marcada para março. Mas, nesse meio-tempo, aconteceu algo que faz parte da própria natureza: o filhote, com aproximadamente dois meses de vida, acabou morrendo.
A partir daí, nossa expectativa mudou completamente. Sem o filhote, seria muito mais difícil avistar o casal de harpias, já que, depois de um evento como esse, eles podem deixar de frequentar o ninho (mas seguir vivendo na região). O problema é que, sem o ninho como ponto de referência, encontrar uma harpia na floresta é quase como procurar uma agulha no palheiro: elas caçam principalmente dentro da mata e no dossel, em vez de passar longos períodos sobrevoando a floresta, como fazem outras aves de rapina..
Conversamos com os participantes, que naturalmente lamentaram a notícia, mas decidiram manter a expedição. E havia bons motivos para isso: além da harpia, os biólogos também monitoravam um ninho de gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus), e a região abrigava inúmeras outras espécies de aves.
Estávamos no Maciço do Urucum, na borda oeste do Pantanal, uma região de enorme importância para a biodiversidade. A paisagem reúne diferentes formações de vegetação, com florestas estacionais, matas de galeria, cerrado e campos de altitude, além de elementos florísticos e faunísticos associados a diferentes regiões do continente. É uma área particularmente rica em espécies raras, endêmicas e de distribuição restrita.
Ao mesmo tempo, é uma região sob forte pressão. O Maciço do Urucum possui importantes reservas de minério de ferro e manganês, e a atividade de mineração, somada a outras formas de ocupação, já provoca fragmentação dos ambientes naturais e representa uma ameaça importante à biodiversidade local.
Passamos seis dias por ali, três com cada grupo. Fotografamos inúmeras espécies de aves — um resultado que só reforçou o enorme potencial, ainda pouco explorado, daquela região. A harpia, porém, ficou para uma próxima oportunidade. E talvez seja justamente essa uma das coisas mais bonitas de uma expedição de natureza: nem sempre a fotografia acontece como planejamos. A natureza não segue roteiro. Cabe a nós estar presentes, observar e aproveitar aquilo que ela decide nos oferecer.
Deixamos aqui um agradecimento muito especial aos participantes que toparam a aventura mesmo depois de saber do ocorrido, e aos nossos guias locais, Rafael e Gabriel, da Icterus Ecoturismo, que nos proporcionaram essa experiência e foram incansáveis na busca pelas espécies que tivemos a oportunidade de encontrar.
A harpia ficou para depois. Mas a Serra do Urucum nos entregou muito mais do que esperávamos.
Veja abaixo algumas das fotos que produzimos por lá.
Fotos
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