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O que é a escala de Bortle?

E como ela pode influenciar no sucesso de uma expedição de astrofotografia?

Laguna Colorada, Altiplano, Bolívia: Bortle 1

Fala pessoal tudo bom! 

A astrofotografia é um dos temas-chave da Gávea Expedições, porém não é tão simples montar uma expedição dessas. A primeira coisa que precisamos ver é o quão escuro realmente é aquele céu, e se vale ir até lá para fotografá-lo à noite.

Para decidir sobre isso, uma das ferramentas objetivas que utilizamos é a escala de Bortle.  

Escala de Bortle: o que é?

A Escala de Bortle foi criada por John E. Bortle para classificar a qualidade visual do céu noturno, a partir do que um observador consegue enxergar no céu a olho nu.

A partir dessa classificação, o céu noturno em questão recebe uma numeração, de 1 a 9, sendo: 

  • Bortle 1–2 → Céus excepcionais, ideais para astrofotografia profunda; típicos de regiões extremamente isoladas, muito longe de qualquer cidade ou vilarejo.

  • Bortle 3–4 → ainda excelentes para Via Láctea e paisagem noturna; típico de regiões rurais e/ou parques nacionais, afastados de cidades pequenas. 

  • Bortle 5–6 → céu já afetado por luz artificial, exige mais técnica; típico de cidades pequenas, longe dos grandes centros, com pouca iluminação noturna

  • Bortle 7–9 → ambiente urbano, grandes limitações para céu profundo. Céu típico das cidades médias e grandes. 

Alguns critérios são utilizados para essa classificação, como: 

  1. Brilho real do fundo do céu

    Este é o fator mais importante. Quanto mais claro é o fundo do céu (mesmo sem Lua), maior é a poluição luminosa — e pior é a classe de Bortle. É esse brilho de fundo que “lava” o contraste das estrelas, da Via Láctea e das nebulosas.

  2. Estrelas visíveis a olho nu

    Outro critério central é: qual é a estrela mais fraca que ainda pode ser vista sem equipamento. Em céus de classe melhor (Bortle 1 ou 2), o número de estrelas visíveis é muito maior. Em céus urbanos (Bortle 7 a 9), apenas as estrelas mais brilhantes permanecem visíveis.

  3. Aparência da Via Láctea
    A forma como a Via Láctea aparece no céu é um dos principais indicadores na escala. A classificação observa, entre outros fatores, se ela é claramente visível e se apresenta estrutura, com contraste entre regiões claras e escuras.

  4. Presença de “domos” de luz no horizonte
    A escala também considera o quanto o horizonte está contaminado por cúpulas de luz de cidades próximas, ou faixas luminosas visíveis ao redor do observador.

Lençóis Maranhenses: mesmo classificado como Bortle 2, é possível ver um grande clarão no horizonte; ali está a cidade de Barreirinhas, que influencia diretamente na piora da qualidade do céu noturno.

Outros dois fatores são importantes para definir a visualização do céu profundo: a altitude e a umidade do local. 

Quanto maior a altitude, menor a quantidade de atmosfera acima do observador, ou seja “menos ar” para desviar e absorver a luz das estrelas, proporcionando céus mais limpos e nítidos, com maior contraste entre estrelas e céu escuro.

A umidade é ainda mais crítica que a altitude para o fotógrafo. Alta umidade aumenta o espalhamento da luz artificial, aumenta o brilho do fundo do céu, reduz contraste e piora a transparência atmosférica. O resultado disso é que um local que apareça como um ótimo Bortle 3 no mapa, pode ser na verdade um Bortle 4 ou 5 em noites mais úmidas de verão.

Por conta da alta altitude (acima dos 3.500m) e baixa umidade – além é claro, de estarem totalmente isolados de cidades – , que locais como o deserto do Atacama no Chile, e a região do Salar de Uyuni na Bolívia, são adorados por astrofotógrafos. Em 2026 inclusive, vamos fazer uma expedição de fotografia de paisagem E astrofotografia para a região de Salta, na Argentina, “vizinha” desses dois desertos citados.

Céu classificado como Bortle 2, nas imediações de Cafayate, no norte da Argentina: certamente um dos melhores céus noturnos daquele país.

Astrofotografia no Brasil

O Brasil tem muitas regiões extremamente escuras, principalmente no Centro-Oeste, que tem poucas cidades e muitas áreas de Cerrado e também isoladas por enormes fazendas de monocultura, porém nossas terras não tem tanta altitude. Já a umidade se concentra bastante nas regiões de floresta e costeiras, deixando o Cerrado, a Caatinga e o Pantanal como as mais secas. 

A Caatinga reserva um lugar especial, o céu mais limpo do Brasil. Trata-se do Raso da Catarina, local remoto no sertão baiano, para onde fomos em 2025 em uma expedição fotográfica inédita, e voltaremos em 2026. Este céu é extremamente limpo classificado entre Bortle 2 e 1, ou seja no topo da escala. Basta dizer que o Raso da Catarina é um dos locais de menor índice pluviométrico do Brasil.

O incrível céu do Raso da Catarina, que pode ser classificado como Bortle 2 ou 1, dependendo da localidade.

Como saber os melhores lugares para astrofotografia? 

Existem alguns aplicativos para ver a Escala de Bortle aplicada no mapa, como o LightPollution Map, que tem uma versão web: https://www.lightpollutionmap.info/

Esse mapa tem uma navegação intuitiva, e ao dar zoom e clicar em qualquer local do planeta, ele indica qual é a escala de Bortle ali. Mesmo sem clicar, visualmente já dá para entender que quanto mais intensa a cor, mais luz há naquela região. Repare que as cores coincidem com as regiões mais populosas, e por consequência, com céu de baixa qualidade para astrofotografia. Já as áreas escuras no mapa são automaticamente classificadas como Bortle 1, pois são afastadas/isoladas dos grandes centros.

Muita gente planeja uma expedição de astrofotografia olhando apenas a fase da Lua e a previsão do tempo, mas esquece que a PL (poluição luminosa) das cidades é um fator determinante para o sucesso ou fracasso de uma empreitada fotográfica como essa. 

Em expedições de astrofotografia, o céu é o principal equipamento, e a escala de Bortle é a forma mais rápida de saber se ele realmente vai jogar a seu favor. 

SOBRE O AUTOR

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Marcello Cavalcanti
Fotógrafo e fundador da Gávea Expedições, Marcello atua há mais de duas décadas na fotografia de paisagem, natureza, astrofotografia e vida selvagem. É professor e criador de cursos online de fotografia, com mais de 3.000 alunos, e desde 2021 lidera expedições fotográficas no Brasil e no exterior, unindo curadoria de destinos e experiências imersivas. Tem cinco livros publicados e é parceiro das marcas Canon do Brasil, f-stop Gear, Vallerret e K&F Concept.

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Marcello Cavalcanti

Fotógrafo e professor de fotografia de paisagem, natureza, astrofotografia e vida selvagem. Marcello administra cursos online de fotografia por onde já passaram mais de 3.000 alunos. Desde 2021, lidera expedições fotográficas para destinos no Brasil e exterior. É parceiro de marcas como Canon do Brasil, f/stop Gear, Vallerret e K&F Concept.

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