Aurora boreal e o ciclo máximo solar

A melhor janela para fotografar o fenômeno

Ringvassøya Island, Noruega

Fala pessoal tudo bom! 

Você pode ter percebido que nesses anos o tema “aurora boreal” cresceu demais, na mídia e nas redes sociais. E não é por acaso. Além de ser um espetáculo absolutamente fantástico e único que ocorre na nossa atmosfera, estamos vivendo o “ciclo máximo solar” de número 25. Vamos entender isso: 

Primeiramente: o que é a aurora boreal?

A aurora boreal é um fenômeno físico natural que ocorre quando partículas vindas do Sol — principalmente elétrons e prótons — chegam até a Terra e são conduzidas pelo campo magnético para as regiões próximas aos polos. Ao entrarem na parte mais alta da atmosfera, essas partículas (também conhecido como o plasma solar) transferem energia para os gases do ar, como o oxigênio e o nitrogênio, e esse processo faz com que esses gases passem a emitir luz, formando no céu estruturas em forma de arcos, cortinas e ondas luminosas que mudam rapidamente de forma e intensidade, formando um dos espetáculos mais impressionantes do céu noturno — e também um dos mais desafiadores e fascinantes para fotógrafos.

Mesmo sendo observada e estudada há séculos, os pesquisadores ainda não conseguem prever os padrões que ela pode “desenhar” no céu, mas conseguem prever a intensidade, baseada nas explosões solares. 

Um arco desenhado no céu. Tromsø, Noruega

O que são as explosões solares

As chamadas explosões solares são eventos de liberação repentina e intensa de energia que acontecem na superfície do Sol, em regiões onde o campo magnético é extremamente ativo. Nessas áreas, ocorre uma reorganização brusca desse campo magnético, que libera uma enorme quantidade de energia em poucos minutos, lançando radiação e partículas para o espaço. Esses eventos são monitorados continuamente por instituições como a NASA.  

O  importante aqui é entender que, uma explosão solar pode ser o gatilho de distúrbios no ambiente espacial da Terra. Quando essa energia e essas partículas chegam ao nosso planeta, elas podem intensificar a atividade geomagnética e, em alguns casos, aumentar as chances de auroras mais fortes, mais extensas e visíveis por mais tempo no céu. Em resumo: explosões solares não são visíveis diretamente da Terra, mas fazem parte do processo que pode resultar em noites de aurora mais impressionantes. Essas explosões solares causam as famosas manchas solares na superfície do Sol, essas sim podem ser observadas da Terra com uso de telescópios ou lentes super teleobjetivas.

Os ciclos de explosões solares

Essas explosões solares ocorrem com mais ou menos intensidade, em ciclos observados desde os anos 1700. Com todos esses dados levantados, observou-se que esses ciclos duram em média 11 anos, passando por períodos hiper ativos, e outros menos ativos. 

O ano de 2020 marcou o início de um novo ciclo, o de número 25 desde o início das observações, e deve ir até 2030/31, tendo seu pico de explosões solares ( o chamado cycle maximum) entre os anos de 2024 e 2026/7, e depois diminuindo gradualmente. Veja o gráfico abaixo com os ciclos de explosões solares observados pelo aumento das manchas solares (sun spots): 

Durante o pico de cada ciclo solar, a Terra pode registrar tempestades geomagnéticas intensas, capazes de afetar redes elétricas de alta tensão, satélites, sistemas de navegação por GPS e comunicações por rádio. Ao mesmo tempo, esses eventos são responsáveis pelas auroras mais fortes, que muitas vezes ultrapassam a região polar — por onde as partículas entram na atmosfera — e passam a ser visíveis em latitudes mais baixas, chegando ao sul da Europa e aos Estados Unidos, regiões que raramente observam a aurora boreal. No hemisfério sul, o mesmo tipo de evento faz com que as luzes ultrapassem o polo e possam ser vistas em áreas da Argentina, do Chile e da Nova Zelândia, onde o fenômeno recebe o nome de aurora austral.

Nos últimos anos, essas “super auroras” ocorreram algumas vezes e foram inclusive noticiadas na mídia do mundo todo, justamente por serem um evento raro de ocorrer fora do Círculo Polar Ártico. 

Repare que, em todas as reportagens mostradas aqui, a aurora apresenta a tradicional cor verde, mas também vermelho e rosa, que são mais raras. As cores da aurora boreal dependem do tipo de gás da atmosfera e da altitude em que as partículas solares colidem com ele. O oxigênio em altitudes médias (~100 km) produz o clássico verde, enquanto em altitudes mais altas (>200 km) gera tons vermelhos. O nitrogênio, por sua vez, contribui para cores azuladas ou rosadas. Durante tempestades geomagnéticas intensas, mais partículas carregadas chegam até as camadas mais altas da atmosfera, ativando gases que normalmente não participam da exibição. É por isso que, nesses eventos fortes, a aurora se torna mais rosa e vermelha, expandindo-se para latitudes maiores e criando um espetáculo visual mais vibrante e diversificado!

Já o ciclo mínimo solar — fase de menor atividade do ciclo do Sol — não significa que as auroras desaparecerão por completo por alguns anos. Elas continuam ocorrendo, porém tendem a ser menos frequentes e menos intensas, com cores geralmente mais suaves (predominantemente verde) e menos vibrantes. Ainda assim, é perfeitamente possível observá-las, especialmente nas regiões localizadas dentro do Círculo Polar Ártico (aproximadamente 66,5° N), em países e territórios como Noruega, Canadá, Finlândia, Rússia, a Groenlândia, o Alasca (estado dos Estados Unidos) e a Islândia, que está posicionada muito próxima dessa latitude.

Apenas como exemplo, em 2020 eu mesmo estive em Tromsø, na Noruega, para fotografar a aurora boreal, e pude observá-la em 7 noites seguidas, alguns dias mais fraca, outros mais forte e vibrante, mas consegui ver e fotografar durante toda a viagem, isso no ano de menor atividade solar! 

O KP Index

Quem já foi fotografar auroras boreais se deparou com o termo “índice KP”, ou KP index, uma escala que pode ser acompanhada em aplicativos como o AuroraWatch por exemplo. O Kp Index, calculado a partir de observatórios geomagnéticos por instituições como o GFZ German Research Centre for Geosciences, mede exatamente o quanto o campo magnético da Terra está sendo “perturbado” naquele momento, numa escala de 0 a 9. Em resumo: explosões solares podem ser o gatilho no Sol, mas o Kp só sobe quando o impacto dessas partículas realmente chega à Terra e provoca uma tempestade geomagnética. Naturalmente, quanto maior o índice KP divulgado, maior a chance de auroras boreais no céu. 

Aurora boreal desenha "gotas" caindo do céu. Região de Tromsø, Noruega.

Em resumo 

O “ciclo máximo solar” não é um truque de marketing para vender tours de aurora boreal — ele é um fator físico real, monitorado por instituições científicas e diretamente ligado à probabilidade de ocorrência de auroras.

Para quem planeja uma expedição fotográfica dedicada à aurora boreal, estar viajando durante a fase de máximo solar significa, objetivamente, aumentar as chances de vivenciar noites mais ativas, mais dinâmicas e mais interessantes para fotografia.

SOBRE O AUTOR

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Marcello Cavalcanti
Fotógrafo e fundador da Gávea Expedições, Marcello atua há mais de duas décadas na fotografia de paisagem, natureza, astrofotografia e vida selvagem. É professor e criador de cursos online de fotografia, com mais de 3.000 alunos, e desde 2021 lidera expedições fotográficas no Brasil e no exterior, unindo curadoria de destinos e experiências imersivas. Tem cinco livros publicados e é parceiro das marcas Canon do Brasil, f-stop Gear, Vallerret e K&F Concept.

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Marcello Cavalcanti

Fotógrafo e fundador da Gávea Expedições, Marcello atua há mais de duas décadas na fotografia de paisagem, natureza, astrofotografia e vida selvagem. É professor e criador de cursos online de fotografia, com mais de 3.000 alunos, e desde 2021 lidera expedições fotográficas no Brasil e no exterior, unindo curadoria de destinos e experiências imersivas. Tem cinco livros publicados e é parceiro das marcas Canon do Brasil, f-stop Gear, Vallerret e K&F Concept.

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