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Guia de roupas de frio para uma expedição fotográfica

Como se vestir adequadamente para se concentrar apenas nas suas fotos?

Fotografando no alto do vulcão Acatenango, um frio consideravel a 3600m. Guatemala, 2024

Fala pessoal tudo bom! 

Não adianta fugir. O frio é uma constante nas expedições fotográficas. 

Seja porque muitos dos melhores destinos de fotografia ficam em latitudes mais altas, seja pela época do ano — outono e inverno costumam oferecer um clima mais estável e, consequentemente, melhores condições para fotografar — ou simplesmente pelos horários em que estamos em campo. Afinal, grande parte das fotos acontece antes do nascer do Sol, depois do pôr do Sol ou até mesmo durante a madrugada.

O fato é que saber se vestir para baixas temperaturas faz toda a diferença no conforto do fotógrafo. Quando você está aquecido, consegue se concentrar no que realmente importa: produzir boas imagens.

Eu costumo dizer que “fotógrafo com frio, fome ou vontade de ir ao banheiro não consegue produzir”. 

Como não convivemos com temperaturas muito baixas no Brasil, é comum que muita gente tenha dificuldade para escolher e combinar as roupas certas para esse tipo de viagem. Por isso resolvi escrever este guia prático mostrando exatamente como eu monto minhas camadas de roupa durante uma expedição.

Vale uma observação importante: este artigo foi pensado principalmente para temperaturas entre 20°C e 0°C. Em ambientes abaixo de zero, normalmente acrescentamos uma camada extra de isolamento, que também vou explicar ao longo do texto.

O segredo é simples: vista-se em camadas.

Costumamos chamar esse sistema de “casca de cebola”, porque cada peça tem uma função específica.

Além de proteger melhor do frio, esse método permite adaptar a roupa às mudanças de temperatura ao longo do dia. Afinal, durante uma expedição é comum alternarmos entre ambientes muito frios e locais aquecidos, como a van, restaurantes ou o hotel. Nesses momentos, basta retirar uma camada para voltar ao conforto, sem precisar trocar completamente de roupa.

1º) Camada Base

A primeira preocupação no frio não é manter o corpo aquecido. É mantê-lo secoPode parecer estranho, mas o suor é um dos maiores inimigos de quem enfrenta baixas temperaturas. Durante uma caminhada ou mesmo carregando equipamentos fotográficos, é natural que o corpo transpire. Se essa umidade permanecer em contato com a pele, ela acelera a perda de calor e aumenta muito a sensação de frio.

É justamente para resolver esse problema que existe a camada base, formada pela segunda pele e o par de meias.

Ela fica em contato direto com o corpo e tem a função de transportar o suor para as camadas externas, mantendo a pele seca durante toda a atividade.

Segunda Pele
Ela consiste em uma camiseta (ou blusa) térmica de manga comprida e uma calça térmica, normalmente vendidas em conjunto. Como o próprio nome sugere, elas ficam ajustadas ao corpo, funcionando como uma segunda camada de pele.

O ideal é optar por tecidos sintéticos de boa qualidade ou lã merino. Evite algodão nessa camada, pois ele absorve a umidade e demora muito para secar.

Meias
Outro item que merece bastante atenção são as meias. Os pés estão entre as partes do corpo que mais sofrem com o frio, principalmente porque permanecem em contato constante com o solo.

Sempre que possível, prefira meias de lã merino. Essa fibra natural oferece excelente isolamento térmico, controla a umidade, reduz odores e continua aquecendo mesmo quando fica levemente úmida. Não são meias baratas, mas fazem muita diferença durante vários dias consecutivos de expedição. Já as meias 100% algodão devem ser evitadas. Elas absorvem o suor, demoram muito para secar e acabam deixando os pés úmidos, aumentando a sensação de frio e favorecendo o aparecimento de bolhas.

Camada Polar
Se a previsão indicar temperaturas negativas, vale acrescentar uma segunda pele PolarEla é mais espessa que a segunda pele convencional e oferece uma capacidade de isolamento térmico muito maior, funcionando como um reforço para situações de frio intenso.

2º) Camada Térmica 1

Depois que a camada base mantém o corpo seco, entra em ação a primeira camada responsável por reter o calor.

Na maioria das expedições fotográficas, essa já é a roupa mínima necessária para sair do hotel. Em destinos com temperaturas entre aproximadamente 5°C e 15°C, muitas vezes ela será suficiente durante boa parte do dia.

Jaqueta Fleece
jaqueta tipo “fleece” é a primeira camada de isolamento térmico. Seu tecido felpado cria pequenas bolsas de ar que retêm o calor produzido pelo corpo, mantendo você aquecido sem comprometer a respirabilidade. Por isso, ela é extremamente confortável para caminhadas e atividades em que estamos constantemente entrando e saindo da van, montando tripé ou carregando mochila. 

Ela aquece muito mais do que aparenta, mas não bloqueia o vento. Em dias muito ventosos ou de frio mais intenso, será necessário adicionar uma camada externa, que veremos mais adiante.

Para a maior parte das expedições, uma boa fleece é uma das peças mais versáteis que você pode levar.

Calça
A melhor opção costuma ser uma calça de trekking. Essas calças normalmente não possuem isolamento térmico próprio, mas isso não é um problema, já que a segunda pele fará esse papel, por baixo dela. A principal vantagem é oferecer liberdade de movimentos, secagem rápida e resistência ao uso intenso.

Alguns modelos destacam a barra da calça virando um par de shorts. São excelentes para trilhas com grande variação de temperatura ao longo do dia. Caso a sua expedição tenha possibilidade de chuva, neve ou terreno constantemente úmido, vale investir em uma calça de trekking impermeável. Ah, e por fim: Evite calças jeans. Além de serem pesadas e limitarem os movimentos, elas absorvem umidade e demoram muito para secar, tornando-se bastante desconfortáveis em ambientes frios.

Bota de trilha
Se existe um equipamento que vale o investimento, provavelmente é a bota.

Durante uma expedição passamos muitas horas caminhando sobre pedras, terra, lama, neve ou terrenos irregulares. Uma boa bota oferece estabilidade para os tornozelos, melhor aderência ao solo e muito mais conforto ao longo do dia. Na hora de escolher o modelo, minha principal recomendação é simples: priorize uma bota impermeávelEssa proteção é obtida através de uma membrana impermeável e respirável, instalada pelo fabricante entre o tecido externo e o forro interno da bota. Ela impede a entrada de água, mas permite que o vapor do suor saia, mantendo os pés mais secos durante a caminhada. A membrana mais conhecida e utilizada é a GORE-TEX, mas diversas fabricantes utilizam tecnologias próprias com a mesma finalidade, como DryVent (NorthFace), Omni-Tech (Columbia), ClimaSalomon (Salomon), entre outras.

No fim das contas, o nome da membrana é menos importante do que o resultado: uma bota confortável, impermeável e com boa respirabilidade.

3º) Camada Térmica 2

Quando a temperatura cai ainda mais, chega a hora de reforçar o isolamento térmico.

É aqui que entra a segunda camada de aquecimento. Em muitas expedições ela passará boa parte do tempo dobrada na mochila, sendo usada apenas nas primeiras horas da manhã, durante sessões de astrofotografia ou quando o vento aumenta.

Essa flexibilidade é justamente uma das grandes vantagens do sistema de camadas: você veste apenas o necessário para cada situação.

Jaqueta de pluma
jaqueta de pluma tem uma única missão: reter o máximo possível de calor com o mínimo de peso.

Ela faz isso criando uma espessa camada de ar entre o corpo e o ambiente externo. Como o ar é um excelente isolante térmico, essa construção permite que a jaqueta aqueça muito, mesmo sendo extremamente leve e compacta. Outra grande vantagem é que ela pode ser comprimida e guardada facilmente na mochila, ocupando pouco espaço quando não está em uso. Existem modelos com e sem capuz. Particularmente, gosto bastante dos modelos com capuz, pois eles oferecem um ganho significativo de conforto quando o vento começa a soprar. 

O material dessa jaqueta também pode variar. Atualmente existem jaquetas com isolamento de pluma natural e outras com isolamento sintético. A pluma natural é mais leve e aquece mais (mais cara). Já os modelos sintéticos perdem um pouco em desempenho, mas continuam funcionando melhor quando molhados.

Aqui é importante fazer uma observação. Não existe uma única forma correta de combinar as Camadas Térmicas 1 e 2.

Algumas pessoas preferem usar apenas a jaqueta de pluma sobre a segunda pele. Outras gostam da combinação fleece + pluma. Em dias menos frios, muitas vezes a fleece sozinha já resolve.

O mais importante é entender que o sistema de camadas existe justamente para isso: permitir que você ajuste a roupa de acordo com a temperatura, o vento e o seu próprio metabolismo.

Ao longo de uma expedição é perfeitamente normal vestir e retirar uma camada várias vezes no mesmo dia.

4º) Camada Externa

Até aqui, todas as camadas tinham um objetivo em comum: manter o calor produzido pelo seu corpo; agora entra uma peça com uma função completamente diferente. A camada externa existe para impedir que o vento, a chuva ou a neve roubem esse calor.

Corta-vento impermeável (Shell)
A shell é a camada de proteção da sua roupa.

Ela bloqueia o vento e impede a entrada de água, preservando o isolamento térmico criado pelas camadas internas. Apesar de muita gente chamá-la apenas de “corta-vento”, vale uma observação importante: nem todo corta-vento é impermeávelOs modelos mais simples protegem apenas do vento. Já os modelos impermeáveis — normalmente chamados de shell ou de anorak no mercado de montanhismo — também oferecem proteção contra chuva e neve. Minha recomendação é investir diretamente em um bom modelo impermeável. Assim você resolve duas necessidades com uma única peça.

Outra grande vantagem é que as shells costumam ser extremamente leves e compactas. Quando o tempo melhora, basta dobrá-las e guardá-las na mochila.

A impermeabilidade dos corta-ventos é dada pela medida “coluna de água”. Quanto maior esse número, maior a pressão de água que o tecido suporta antes de começar a infiltrar. Para expedições fotográficas, prefira uma jaqueta com coluna d’água de pelo menos 10.000 mm. Para destinos de frio intenso ou chuva frequente, modelos de 20.000 mm ou mais oferecem proteção adicional.

Além da coluna d’água, procure modelos com costuras seladas e capuz ajustável, dois detalhes que fazem bastante diferença quando o tempo realmente fecha.

Outro ponto importante é a respirabilidade. Uma boa shell impede a entrada da água, mas continua permitindo que parte do vapor do suor saia, evitando aquela sensação de estar “cozinhando” dentro da jaqueta durante uma caminhada.

5º) Acessórios

Mesmo com um bom sistema de camadas, ainda existe um detalhe importante: proteger as extremidades do corpo. Mãos, pés, cabeça e pescoço costumam ser as primeiras regiões a perder calor. 

Gorro
Um bom gorro de lã ou material sintético é um dos acessórios mais simples — e também um dos mais eficientes. Como a cabeça fica constantemente exposta ao vento, protegê-la ajuda bastante na sensação geral de conforto térmico, principalmente durante longos períodos parado esperando a luz ideal. Aliás, uma dica prática: leve dois gorros! Eles vivem sendo esquecidos dentro da van, caindo da mochila ou ficando em algum restaurante. Ter um reserva já me salvou mais de uma vez (Patagônia e Guatemala), e não ter também me deixou em apuros (Salta)! 

Luvas
As luvas talvez sejam o acessório que mais gera dúvidas entre fotógrafos. Por um lado, elas são fundamentais para proteger as mãos do frio. Por outro, muitos evitam usá-las porque dificultam o manuseio da câmera. Depois de muitos anos fotografando em ambientes frios, encontrei uma solução que funciona muito bem: usar duas camadas de luvas (quando necessário, claro).

Luvas Liner: As liners são luvas finas que funcionam como camada base. Elas oferecem um aquecimento leve, preservam a sensibilidade das mãos e permitem ajustar a câmera sem expor completamente a pele ao frio, pois atualmente a maioria dos modelos possui pontas dos dedos compatíveis com telas sensíveis ao toque, facilitando a vida do fotógrafo. Em temperaturas moderadamente frias, elas costumam ser mais do que suficientes.
Luvas térmicas: 
Quando o frio aperta, entra a segunda camada. Prefiro modelos específicos para fotografia, como os da Vallerret, que possuem aberturas no polegar e no indicador. Assim é possível ajustar a câmera ou trocar uma lente rapidamente sem retirar completamente a luva. Essa combinação — liner por baixo e luva térmica por cima — oferece um excelente equilíbrio entre proteção e praticidade.

Buff/Pescoceira
Este é um dos acessórios mais subestimados do vestuário para frio. É comum ver pessoas bem protegidas nas mãos, pés e cabeça, mas deixando justamente o pescoço totalmente exposto ao vento. Um bom buff de lã ou tecido térmico protege essa região e ainda pode ser usado de diversas formas: cobrindo apenas o pescoço, o queixo, parte do rosto ou até funcionando como um gorro improvisado. Evite os buffs muito finos usados para proteção solar. Eles são excelentes para calor, mas praticamente não oferecem isolamento térmico.

Se você chegou até aqui, talvez esteja pensando: “Nossa… preciso comprar isso tudo?”

Na verdade, não. O mais importante é entender o conceito das camadas. Muitas dessas peças você provavelmente já possui, e outras podem ser adquiridas aos poucos, conforme for viajando para destinos mais frios.

Depois da primeira expedição você percebe que vestir-se corretamente deixa de ser uma preocupação. Você simplesmente adapta as camadas ao clima e passa a prestar atenção apenas no que realmente importa: A fotografia.

Nos vemos em campo!

Um abraço,

Marcello

SOBRE O AUTOR

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Marcello Cavalcanti
Fotógrafo e fundador da Gávea Expedições, Marcello atua há mais de duas décadas na fotografia de paisagem, natureza, astrofotografia e vida selvagem. É professor e criador de cursos online de fotografia, com mais de 3.000 alunos, e desde 2021 lidera expedições fotográficas no Brasil e no exterior, unindo curadoria de destinos e experiências imersivas. Tem cinco livros publicados e é parceiro das marcas Canon do Brasil, f-stop Gear, Vallerret e K&F Concept.

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Marcello Cavalcanti

Fotógrafo e professor de fotografia de paisagem, natureza, astrofotografia e vida selvagem. Marcello administra cursos online de fotografia por onde já passaram mais de 3.000 alunos. Desde 2021, lidera expedições fotográficas para destinos no Brasil e exterior. É parceiro de marcas como Canon do Brasil, f/stop Gear, Vallerret e K&F Concept.

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